‘MUTAÇÃO EM 2ª ONDA DO CORONAVÍRUS FOI DETECTADA EM ARAGÓN, NA ESPANHA’

Em entrevista a ÉPOCA, Iñaki Comas, chefe da Unidade Genômica de Tuberculose do Instituto de Biomedicina de Valencia (IBV), explica a descoberta de nova cepa que se alastrou por países da Europa

Iñaki Comas, chefe da Unidade Genômica de Tuberculose do Instituto de Biomedicina de Valencia (IBV) Foto: Mila Martínez( FISABIO)
Foto: Mirla Martinez

“Não é a primeira, nem será a última variante do vírus”, afirma Iñaki Comas, pesquisador e um dos diretores do Consórcio para Epidemiologia Genômica (SeqCOVID) da Covid-19. O pesquisador espanhol faz parte de uma equipe de cientistas que rastreia as mutações genéticas do coronavírus.

Na última quinta-feira (29), foi divulgado que o estudo preliminar do grupo indica que a nova variante, batizada de 20A. EU1, pode ajudar a traçar a disseminação do vírus e ainda auxiliar na medidas de restrição para conter a pandemia. Em entrevista a Época, por Skype, o biólogo explica a pesquisa relacionada a descoberta da nova cepa, que já se alastrou por países da Europa.

Quando teve início a pesquisa associada à mutação do coronavírus?

Iñaki Comas é um dos autores do estudo sobre a nova cepa que se alastrou por alguns países da Europa Foto: Mila Martínez( FISABIO)
Foto: Mirla Martinez

Estamos analisando amostras aqui na Espanha desde abril. A identificação deste novo genótipo foi constatada há apenas três semanas e por isso mesmo a necessidade de publicar imediatamente esse estudo do consórcio espanhol SeqCOVID em parceria com pesquisadores suíços. Para identificar essa nova variante do vírus batizada de 20A. EU1, sequenciamos o genoma de 4 mil amostras enviadas pelos 30 hospitais e centros médicos espanhóis com os quais colaboramos. 

Existe um marco zero dessa mutação?

Essa variante do vírus, que caracteriza a segunda onda na Europa, foi identificada pela primeira vez em Caspe e Alcañiz, na região de Aragón, no norte da Espanha, por volta da metade de junho e acabou se disseminando entre trabalhadores da zona rural de Huesca e Lleida, sempre na mesma região.

Gráfico mostra números do estudo que Iñaki Comas participa Foto: Reprodução

Porém, não podemos certificar que a sua origem ou mesmo se a variante nasceu na Espanha ou foi trazida para cá. Os primeiros casos foram detectados aqui e na Holanda. O que está confirmado é que a propagação dessa variante se deu a partir do território espanhol principalmente durante o período de férias na Europa. Acreditamos que o vírus mutado tenha passado de Aragón para a região da Catalunha e Valência e daí para o resto da Europa. Essa nova cepa, que hoje é uma das mais frequentes no continente, representa já 80% das novas infecções em nosso país e 35% na Suíça, segundo os últimos dados.

Como ocorre esse tipo de mutação?

Vale lembrar que mutações nos genes podem ocorrer a todo momento nos vírus. No da gripe comum se verificam quatro mutações ao mês. No do coronavírus, duas. Se analisarmos os dados de novembro do ano passado e de outubro deste ano, iremos verificar que o vírus já gerou de 20 a 24 variantes. Em palavras simples, o vírus comete erros, de vez em quando, quando se replica. Calculamos que só na Europa tenham sido detectadas 100 variantes do SARS-CoV-2, mas só algumas resistem, digamos assim, como é o caso da 20A.

Um dos fatores que influem no desaparecimento ou diminuição de uma cepa é, por exemplo, o isolamento, o famoso lockdown. Foi exatamente o que aconteceu na primeira onda, com as medidas restritivas. Conseguiu-se atenuar a potência do vírus. Quando a curva se estabilizou, houve um certo afrouxamento com a abertura das fronteiras e a não obrigatoriedade de máscaras e distanciamento social. Aí surgiu a oportunidade para a variante se empossar do território.

Essa nova cepa reage da mesma forma aos medicamentos ou é mais resistente?

Repito, que assim como a gripe comum onde as vacinas acabam sendo ‘revisadas’ ano a ano, os antivirais por vezes devem ser substituídos. É importante porém alertar que, até o momento, não temos nenhuma prova de que essa nova variante seja tão o mais letal que a SARS-CoV-2 ou com maior capacidade de transmissão. Nem muito menos que seja mais ou menos resistente. Essa variante tem os mesmos efeitos das outras variantes que já circulam pelo mundo.

Iñaki Comas, chefe da Unidade Genômica de Tuberculose do Instituto de Biomedicina de Valencia (IBV) Foto: Mila Martínez( FISABIO)
Foto: Mirla Martinez

Em relação à vacina, a sua eficácia depende de um processo muito complexo mas não acredito que essas mutações possam interferir no êxito da mesma. Hoje, temos candidatas à vacina… acho que somente  em julho do ano que vem teremos algo de concreto. A melhor alternativa seria uma que pudesse prevenir a infecção o que evitaria a transmissão.

Como está a mobilização em torno dessa nova cepa? Eles entraram em contato com outros pesquisadores e institutos de pesquisa?

Continuamos a trabalhar em parceria com pesquisadores de todo mundo. É um exemplo de forte colaboração internacional. Todos os nossos estudos são publicados em um acervo público que nos ajuda, em tempo real, a saber se há alguma novidade, nesse caso novas variantes. E graças a esse acervo público pudemos saber que o vírus mutado também foi detectado na Nova Zelândia e Hong-Kong.

Por Fernanda Massorotto, Época

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