O texto deste artigo traz o relato de uma experiência realizada com duas turmas do sétimo ano de uma escola pública de Ensino Fundamental e Médio da cidade de Rio Branco. O objetivo do trabalho é contribuir na formação dos alunos, fazendo uma reflexão sobre a diversidade religiosa de matriz africana no Brasil, intolerância religiosa, identidade e racismo, com a aplicabilidade da Lei Nº 10.639/2003. A Lei possibilita trabalhar os conteúdos no ensino de história, mostrando que muitos direitos foram adquiridos através de lutas e movimentos sociais negros valorizando a cultura afro-brasileira e africana, superando o racismo e no combate aos preconceitos em sala de aula. O conhecimento prévio dos alunos foi identificado com a discussão sobre os percursos históricos, fazendo uma conexão com a vivência dos mesmos, promovendo o diálogo, interesse e participação satisfatórios durante a interação com a turma, onde os mesmos se reconheceram partícipes da história.

A escola deve ser um ambiente que proporcione momentos de
aprendizagem e socialização, assim como tem o papel de contribuir com as políticas de ações afirmativas, prezando pelo direito de igualdade, abolindo o preconceito provocado pela herança eurocêntrica, principalmente em relação à discriminação da população negra que até hoje são marginalizados pelo preconceito racial e social. Com a implementação da Lei Nº 10.639/2003 que se tornou obrigatória em todas as escolas de ensino da rede pública e privada do Brasil, o ensino de História da África e da cultura afro-brasileira atua como instrumento necessário para que professores possam trabalhar na construção de um país que conheça e respeite as diferentes matrizes culturais e históricas dos povos africanos e dos afro-brasileiros, descartando todo e qualquer tipo de preconceito, valorizando as diversas formas de demonstrações de fé.
José Ricardo Oriá Fernandes (2005, p. 381) discorre sobra a importância da valorização da diversidade étnico-cultural de nossa formação no sistema educacional brasileiro:
Consideramos, pois, de fundamental importância a inclusão do ensino de história da África no currículo da educação básica, por saber que a instituição escolar tem um papel fundamental no combate ao preconceito e à discriminação, porque participa na formulação de atitudes e valores essenciais à formação da cidadania de nossos educandos.

Segundo Oriá Fernandes é somente através do conhecimento da História da África e dos negros que os preconceitos poderão ser desfeitos, contribuindo com o reconhecimento da própria identidade, onde crianças e jovens são marginalizados pelos padrões eurocêntricos que negam a pluralidade e diversidade cultural na formação dos mesmos.
A diversidade religiosa ainda é um tabu muito presente na sala de aula, por isso a importância em oportunizar aos alunos o conhecimento e a valorização do percurso dos movimentos e grupos sociais que lutam com o intuito de promover reflexões na sociedade, mostrando que existem diversas religiões, que ninguém tem o direito de criticar a escolha o próximo e sim respeitar. É preciso fazer essa mudança no cenário atual, a educação é o pilar para diminuir e/ou tentar se possível abolir a intolerância, onde cada pessoa possa professar sua fé na religião que assim desejar, sendo aceito com respeito e dignidade pela sociedade.

A experiência com o ensino de história na sala de aula abordando a diversidade religiosa de matriz africana foi um desafio prazeroso e ao mesmo tempo assustador, pois são alunos com particularidades e/ou características bem diferentes e individuais. Durante a intervenção na sala de aula, foi possível observar que a questão religiosa de matriz africana é estigmatizada e relacionada ao culto das feitiçarias e magia negra, é nesse contexto que precisamos buscar na educação o alicerce para essa caminhada árdua e difícil de conscientizar as pessoas o direito à liberdade religiosa, independente da religião escolhida. A pesquisa se faz necessária para entender as relações sociais ao longo do tempo e o constante processo de transformação diante dos conteúdos propostos, principalmente a questão da religião que não está explícita nos cadernos de orientações curriculares, a apropriação desses conteúdos podem ser relatadas pelas próprias vivências e relatos do cotidiano dos alunos, assim eles passam a se reconhecer e desmistificar algum tipo de preconceito vivido. Nóvoa (2002, p. 23) diz que: “O aprender contínuo é essencial e se concentra em dois pilares: a própria pessoa, como agente e a escola, como lugar de crescimento profissional permanente”.
A intervenção foi realizada em duas etapas, nos dias 26 e 27 de outubro, duas turmas de sétimo ano do ensino fundamental com alunos entre 12 e 14 anos. No primeiro dia foi feito a observação das turmas e apresentação dos mesmos, na ocasião falaram os nomes, onde moram, religião que frequentam e quais as religiões existentes no bairro que residem. Para minha surpresa, a maioria conhecia as religiões de matriz africana (não com essa nomenclatura), pois moram próximos a terreiros de candomblé, aos quais os alunos chamam de “terreiro de macumba” ou “centro de magia negra”. Vou aqui nomear hipoteticamente as turmas, uma de 7º ano “A” e a outra de 7° ano “B”. Nas duas foram utilizados 2 horas/aula no dia da intervenção que equivaleram a 100 minutos no segundo dia e 50 minutos no dia anterior, as metodologias foram as mesmas para ambas as turmas, assim como a receptividade e compreensão foram satisfatórias. O que diferenciou foi a maneira de organização da sala, no 7º ano “A” as cadeiras estavam em filas, de maneira tradicional, no dia da intervenção choveu bastante pela manhã, houve muitas ausências, então pedi que os mesmos ficassem mais próximos da lousa e assim fizeram. Na turma do 7º ano “B”, a sala foi organizada em formato de círculo, pois estavam conversando bastante, chegaram do intervalo bem agitados, após a organização das cadeiras ficaram mais calmos e prestaram atenção na aula e começaram a interagir, também tinha muitos alunos ausentes devido à chuva. Iniciei a aula seguindo o roteiro da sequência didática da mesma forma para as duas turmas, perguntando o que eles sabiam sobre a África, em relação a cultura Afrobrasileira, para identificar o conhecimento prévio deles sobre o assunto. Em resposta todos já ouviram falar da África. A maioria não sabia que a África é um continente, achavam que era um país, nesse momento mostrei o mapa onde estava localizado o continente Africano. Falaram das comidas típicas, da pobreza, da escravidão e da capoeira.
Em seguida, foram indagados para conceituarem religião, se conheciam alguma e se existia alguma religião no bairro em que moram, caso tivesse para falar quais. A maioria definiu religião com a palavra fé, outros falaram que era reunião de pessoas. A turma se auto declarou bem dividida em católicos e evangélicos, entre as diversas religiões existentes nos bairros em que moravam, citaram, igrejas evangélicas, católicas e “terreiros de macumba” e “casas de feitiçarias e magia negra”. Em seguida perguntei o que entendem por diversidade, se poderiam citar exemplos de preconceito e falar sobre manifestação religiosa.
Quase todos não sabiam o que significava a palavra diversidade, os exemplos citados de preconceito foram em sua maioria o de cor da pele, cabelo e condição social. Não souberam esplanar sobre manifestação religiosa.Após a fala dos alunos comentei um pouco sobre importância da proteção da liberdade religiosa embasada num texto de Andréa Regina de Morais Benedetti e Fernanda Trindade, Liberdade de culto: aspectos gerais e evolução histórica.
Onde as autoras entre outras bibliografias tem o embasamento teórico pautado na Constituição Federal em seus diversos artigos e parágrafos, garantindo a laicidade do país, liberdade religiosa e de culto. Tal qual podemos verificar no artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal:

Artigo 208. Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa. Parágrafo único. Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.
As autoras acham de fundamental importância a proteção da liberdade
religiosa e suas vertentes, principalmente a liberdade ao culto, por ser a mais conflituosa no âmbito jurídico, porém é a que se torna indispensável para a plenitude do exercício da crença e da religião. Li o conceito de religião segundo o dicionário Aurélio, disponível na escola. Esse diálogo durou em média vinte e cinco minutos. Em seguida fiz uma aula expositiva usando o projetor de imagens, abordando um pouco sobre a cultura e arte afro-brasileira, música, capoeira, culinária e localização da África no mapa, mostrei que o Brasil é um dos países que mais possui população negra em todo o mundo. Isso, devido aos mais de 4 milhões de homens, mulheres e crianças que foram trazidas para o comércio de escravos, foi exposto alguns dados de negros escravizados trazidos ao país no período entre os séculos XVI e metade do século XIX, espalhados em algumas regiões, mas com maior número em Salvador e Rio de Janeiro. Ao falar da religião, todos ficaram bastante apreensivos quando mostrei a diversidade de religiões de matriz africana. Foram repassadas a riqueza e a diversidade cultural dos cultos, quatro religiões e seus conceitos foram projetadas aos alunos: Tambor de Mina, Candomblé, Umbanda e Batuque. Com ênfase no Candomblé e Umbanda que são as mais conhecidas, inclusive pelos alunos, mas de uma maneira distorcida.
A importância do conhecimento foi bastante proveitoso, embora tenham havido houve algumas resistências. Consegui explicar aos mesmos que háséculos existe uma distorção em relação a doutrina de matriz africana, sobretudo pela Igreja Católica, resguardar essa influência afrodescendente é manter viva uma história de lutas, resistências e garantir a identidade, que deve ser respeitada e preservada, essas religiões marginalizadas pelo modelo da igreja de um único deus, geram muitos conflitos devido à intolerância religiosa. Na sala de aula, os alunos relataram que conhecem alguns terreiros de candomblé próximos de suas casas, mas existe aversão a religião, pois tem a ideia de feitiçaria, magia negra, dizem que lá pratica-se o mal, que é a casa do demônio.
É muito complicado fazer com que os alunos desconstruam essa visão em uma única aula, por isso a importância da aplicação da Lei Nº 10.639/2003 em sala de aula. Muitas foram as discussões acerca das religiões afrobrasileiras, na turma do 7º ano B presenciei vários enfrentamentos, a maioria dos alunos não aceitavam o Candomblé e a Umbanda como uma “religião do bem”, para eles é uma religião de macumba, apesar de ter explicado o conceito de macumba, segundo o dicionário, mostrando a imagem do instrumento chamado macumba, eles resistiram um pouco, já estavam sentados com as cadeiras em círculo, fizemos uma roda de conversa, cada um contando alguma experiência religiosa. Faltando quarenta minutos para encerrar a aula, pedi que fizessem um desenho com legenda de acordo com a aula expositiva e discussão durante a aula, a tarefa foi a mesma para as duas turmas, quem não quisesse desenhar poderia escrever uma frase ou um parágrafo, pois o tempo já estava curto.
Quando os alunos terminaram, fizemos um varal com as atividades e eles foram explicando o que cada imagem representava, eram desenhos de tambor, vela, pessoas, com frases de reverencia à diversidade religiosa e respeito a cor dos negros. Ficou claro que na atividade proposta entenderam e mudaram seus conceitos ao final da aula. Perguntado se gostaram da aula, prontamente sinalizaram positivamente, pois nunca tinham estudado sobre as religiões de matriz africana e que iam prestar atenção nos terreiros de candomblé existentes próximos a suas casas para tirar algumas dúvidas.

A abordagem da diversidade religiosa possibilitou um conhecimento crítico dos alunos, perceberam que são religiões presentes no nosso dia a dia, foi um momento onde sentiram o quanto a realidade deles estava associada ao conteúdo, com a participação e entendimento, assimilaram os objetivos propostos e as expectativas foram além dos conteúdos dos livros didáticos. Foi uma experiência única, ao perceber que os alunos no início da aula pensavam de uma maneira e no final mudaram a opinião que a maioria tinha de desrespeito e preconceito tanto das religiões afro-brasileiras, quanto preconceito racial, por acharam que o negro está associado a marginalização. Foram feitos registros fotográficos de vários momentos da aula, inclusive no final com o varal de atividades.
O trabalho realizado trouxe novas experiências e práticas para minha formação profissional, foi bastante gratificante. Trabalhar a temática diversidade religiosa contribuiu na interatividade dos alunos, o que intensificou a capacidade deles desenvolverem o conhecimento crítico com o conteúdo estudado. O professor tem que estar buscando caminhos para que o aluno sinta-se partícipe do processo de ensino e não coagido a pensar igual ao docente, ter o direito de escolher suas concepções e ideologias, que possam ajudar de alguma forma a sociedade. O aluno começa a perceber que sua vivência faz parte do conhecimento e tem importância na transformação da sociedade, é o início do pensar diferente, seu olhar já não está voltado apenas para os livros didáticos. Os estudantes entenderam que vivemos em um país laico, que somos livres para fazer as escolhas religiosas e acima de tudo respeitar a preferência do próximo.

É importante que o professor conheça a realidade de seus discentes, para que o processo de planejamento esteja próximo a sua realidade, instigá-los a produzir através da sua concepção de mundo, onde sejam capazes de produzirem suas próprias reflexões. Isso ficou claro na turma durante a intervenção, foram bastante participativos, expuseram suas opiniões, falaram de experiências vividas e da discriminação racial. É preciso transformar aquele aluno para que não saia da sala de aula da mesma maneira que entrou. Que sua visão de mundo se transforme a partir do próprio sujeito, tendo a educação como instrumento modificador na vida dos mesmos. O processo pedagógico necessita quebrar os paradigmas, mostrando as diversas formas existentes das religiões, mostrar que o estado é laico e democrático. E assim sendo, na escola a religiosidade deve ser discutida, contextualizada através de processos educativos valorizando a diversidade cultural, para que os alunos sejam capazes de escolher a religião independentente de influência de outras pessoas. Nestesentido, é perceptível a intolerância religiosa e infelizmente existem outros motivos por trás, não são conflitos por causa da religião em si, a discriminação racial e social, muitas vezes é motivadora desses atos discriminatórios. É um processo longo, conscientizar as pessoas, não é tarefa fácil. Muitos preconceitos estão enraizados, a pessoa que se declara membro de alguma religião de matriz africana é hostilizada, marginalizada e massacrada. Sendo assim, a escola tem o papel fundamental na formação dos sujeitos, agindo de forma democrática, abordando a diversidade cultural religiosa, comprometida com uma sociedade mais justa e igualitária.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERNANDES, José Ricardo Oriá. Ensino de história e diversidade cultural: desafios e possibilidades. Cad. Cedes, vol. 25, 2005. LODY, Raul Giovanni. Candomblé: religião e resistência cultural. São Paulo: Ática, 1987. BORGES, Edson (org.). Racismo, preconceito e intolerância; Atual, 2002. NASCIMENTO, Alessandra Amaral Soares. Candomblé e Umbanda: Práticas religiosas da identidade negra no Brasil. RBSE, 9 (27): 923 a 944. ISSN 16768965, dezembro de 2010.
Por Tânia Cristina da Silva França